Mais de 180 profissionais das UBSs de Barretos participam de treinamento sobre nome social e acolhimento a pessoa trans
A ação buscou qualificar profissionais de todas as unidades para que as pessoas trans se sintam respeitadas ao serem atendidas. A segunda etapa da capacitação visou ampliar o conhecimento sobre os medicamentos que previnem HIV para que toda a equipe saiba como orientar quem procurar a unidade
187 profissionais das 18 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da zona urbana e da zona rural da Estância Turística de Barretos participaram na última semana de uma capacitação realizada na Secretaria Municipal de Saúde. Os profissionais de enfermagem, administrativo, farmácia e agentes comunitários de saúde (ACSs) foram instruídos quanto a formas e a importância de atender as pessoas trans com respeito, utilizando o nome social no momento de se referir.
Kathya Pitaro, enfermeira com atuação na Santa Casa de Barretos e que já foi gestora de UBS no município, destacou como ações simples com respeito podem ser decisivas para que uma pessoa trans se sinta acolhida em vez de se afastar da unidade de saúde. “Como que não vou acolher um paciente se ele está buscando ajuda? Temos sempre que respeitar o paciente, seja ele hétero, homo, transexual, branco, negro. O respeito é a construção de qualquer relacionamento, seja ele pessoal ou profissional”, afirmou. “Desde o primeiro funcionário que inicia o atendimento no balcão, é preciso perguntar a esse ou essa paciente ‘Como você gostaria que eu te chamasse?’. A paciente responde ‘Meu nome é Kathya’. Então, pronto: ‘Kathya’. O que isso muda? Muda muita coisa”, disse a enfermeira, reforçando como é possível atender com eficiência mesmo quando, em função do processo burocrático, a alteração do nome ainda não foi realizada em toda a documentação.
“Se esse acolhimento não ocorre, a pessoa vai ficar quietinha, mas não vai procurar mais a unidade de saúde porque não teve o mínimo, que é respeito. E talvez ela procure uma unidade de saúde e depois outra e outra e não é respeitada. Até quando? Isso é um direito. Não há questão religiosa, não há nada que justifique não agirmos com respeito”, afirmou Kathya. Ela reforçou também a necessidade de as equipes da saúde acolherem profissionais do sexo sem fazer julgamentos.
A enfermeira lembrou que também é comum, equivocadamente, profissionais da saúde pensarem que a pessoa trans somente procura uma UBS para iniciar o processo de hormonização, sendo que o apropriado é acolher essa pessoa para o acompanhamento de sua saúde física e psicológica como um todo. “Os principais motivos de ser comum essa população procurar pouco a unidade são medo de exclusão e violência. E a gente precisa se colocar no lugar do outro. A gente precisa trazer essa população para a nossa unidade”, afirmou. O respeito às pessoas trans é assegurado também pela Lei 10.948/2021, que estabelece que toda manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra pessoa homossexual, bissexual ou transgênero deve ser punida.
Marina Francisco, coordenadora da Atenção Básica, destacou que há diálogo entre a Diretoria Regional de Saúde e a Secretaria para a instalação de ambulatórios voltados para o atendimento a pessoas trans em Barretos e outras cidades. “Independentemente de ambulatório, os profissionais de cada UBS sempre vão precisar estar preparados para acolher essa população”, lembrou a coordenadora.
Prevenção ao HIV
Na segunda etapa do treinamento, a enfermeira do Serviço de Atendimento Especializado Casa Rosa, Simoni Batistela, reforçou aos profissionais das UBSs as informações sobre os medicamentos preventivos para HIV que estão disponíveis gratuitamente na rede pública, seja para situações emergenciais após uma exposição (PEP) ou para uso regular de forma preventiva por pessoas que consideram que poderão ter relações com risco de transmissão do vírus (PrEP).
A enfermeira Simoni destacou que a PrEP não é fornecida apenas para pessoas LGBTQIAPN+. “É importante que vocês que estão trabalhando na UBS saibam que existe esse medicamento: que se for tomado diariamente ou de forma programada para uma exposição eventual pode prevenir a contaminação pelo HIV”, ressaltou a enfermeira durante o treinamento. “Sabendo disso, vocês poderão se atentar a quais são os principais públicos que têm indicação do Ministério para tomar a PrEP e compartilhar com eles a informação que a Casa Rosa disponibiliza esse medicamento, assim como indicar a Casa Rosa para todas as pessoas que cheguem na UBS perguntando sobre a PrEP”, explicou.
A médica infectologista Francis Sampaio de Assis, que já atuou em Barretos, também reforçou nessa capacitação, realizada nos dias 19 e 21, informações sobre a Profilaxia pós-exposição (PEP), que pode ser adotada de forma emergencial até 72h após uma exposição de risco – sendo que quanto antes for iniciada, maior a chance de ter efeito. A PEP pode ser adotada em situações de não se ter usado preservativo, violência sexual, acidente perfurocortante e compartilhamento de agulhas. A coordenadora do Programa Municipal IST/HIV/AIDS, Cecília de Assis, aproveitou a ocasião para reforçar sobre a legislação que determina que os profissionais da saúde ajam com sigilo no que diz respeito a condições de pessoas que vivem com HIV/AIDS, hepatite B, hepatite C, hanseníase e tuberculose. Conforme a Lei 14.289/2022, o profissional que tiver acesso a essas informações em função de sua profissão e não preservar o sigilo fica sujeito a penalidades como suspensão de atividade e pagamento de indenização.
Os atendimentos relacionados a PrEP e PEP são realizados na Casa Rosa de segunda a sexta-feira das 8h às 16h; a Casa Rosa fica localizada na Avenida Jerônimo Alves Pereira, n. 490, no Jd. Universitário. Em caso de situações emergenciais que ocorram após este horário e em finais de semanas e feriados, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Barretos deve ser procurada para iniciar a PEP.









