Artigo: A Polarização e a Inteligência não habitam o mesmo espaço
Vivemos um tempo em que pensar se tornou um ato de coragem.
A polarização não é debate. Debate é o confronto de ideias com o objetivo de encontrar a verdade. Polarização é o confronto de torcidas com o objetivo de aniquilar o outro. E onde há torcida, não há inteligência. Há apenas grito.
A inteligência exige três coisas que a polarização odeia: dúvida, silêncio e complexidade.
O polarizado não duvida. Ele tem certeza absoluta. Certeza de que o seu lado é puro e o outro lado é maligno. A inteligência, ao contrário, começa exatamente na dúvida. Sócrates, o homem mais sábio de Atenas, dizia: “Só sei que nada sei”. O polarizado diz: “Só eu sei de tudo”.
A inteligência precisa de silêncio. É no silêncio que se pondera, que se lê, que se escuta o argumento alheio para entender, não para responder. A polarização precisa de barulho. De lacração, de rede social, de cancelamento imediato. Quem faz muito barulho não tem tempo para pensar.
E a inteligência mora na complexidade. O mundo é complexo. O ser humano é complexo. Os problemas de uma nação como o Brasil são complexos. Não cabem em um slogan de 10 palavras, não cabem em um boné, em uma camiseta vermelha ou amarela. A polarização ama simplificar: nós contra eles, bem contra mal, povo contra elite. É uma mentira confortável que nos poupa do esforço de pensar.
Por que a polarização venceu?
Porque pensar cansa. É muito mais fácil pertencer do que refletir. É mais fácil receber um pacote pronto de opiniões do seu grupo político e repetir, do que construir sua própria opinião.
O polarizado terceirizou o cérebro. Ele não pensa mais, ele é pensado pelo algoritmo. O algoritmo entrega para ele apenas o que confirma o que ele já acredita, e esconde o resto. Assim, ele vai ficando cada vez mais burro e cada vez mais convicto de que é inteligente.
O homem inteligente é livre. Ele pode concordar com uma ideia da direita hoje e com uma ideia da esquerda amanhã, sem pedir permissão a ninguém. Ele não tem lado, ele tem princípios. Ele não defende político, ele defende valores. Ele não idolatra homens, ele respeita ideias.
A polarização quer soldados. A inteligência forma generais de si mesmos.
Porque no final, a história mostra: as torcidas passam, os palanques caem, os políticos são esquecidos. O que fica é o conhecimento.
E conhecimento nunca gritou. Ele sempre sussurrou.
Autor; Wolinsk Maruco
