Encruzilhada da Bolívia: A Luta pela Defesa do Estado Plurinacional e as Liberdades de Participação Democrática

 

A Bolívia vive hoje um dos momentos mais dramáticos de sua história recente. Há mais de três semanas, o país está paralisado por uma greve geral e bloqueios de estradas promovidos por uma ampla revolta popular que reúne povos indígenas, mulheres, operários, mineradores e estudantes.
A resposta do governo do atual presidente, Rodrigo Paz, tem sido a repressão violenta, resultando em mortes, mais de 150 prisões políticas e, no dia de ontem, a promulgação de uma lei que derruba os limites do Estado de Exceção, autorizando o uso irrestrito das forças militares contra civis. Para compreender as razões que levaram o povo boliviano de volta às ruas, é preciso resgatar o histórico de conquistas que moldaram o país nas últimas décadas.

O Histórico: Da Exclusão à Conquista do Estado Plurinacional

Historicamente, a Bolívia foi marcada por um modelo de Estado centralizado que marginalizava a maioria de sua população, composta majoritariamente por povos indígenas originários. Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, a aplicação radical de políticas neoliberais resultou na privatização de serviços básicos (como água, luz, educação e saúde) e na entrega de empresas estratégicas — a exemplo da petrolífera YPFB e da companhia de telecomunicações ENTEL — ao capital estrangeiro. Esse ciclo de empobrecimento e exclusão gerou revoltas populares históricas, como a Guerra da Água e a Guerra do Gás; em 2003, o povo boliviano organizado sepultou o modelo neoliberal vigente.
A grande virada histórica consolidou-se com a refundação do país através da Nova Constituição Política do Estado. A Bolívia deixou de ser uma República excludente para se tornar um Estado Plurinacional — conceito que reconhece a coexistência de várias nações, culturas ou povos originários dentro de um mesmo território e sob uma única Constituição, rejeitando a ideia tradicional de um Estado “homogêneo”.
Essa conquista jurídica foi um momento marcante de reconhecimento de décadas de luta do povo boliviano. O novo ordenamento reconheceu a pluralidade cultural e a autonomia das nações indígenas, integrando o conceito do Vivir Bien como princípio norteador da economia e da sociedade: um modelo baseado na soberania sobre os recursos naturais, na justiça social e no respeito à Mãe Terra.
A Crise Eleitoral e a Eleição de Rodrigo Paz
O atual cenário de instabilidade remete ao processo eleitoral de 2025. Marcado pela exclusão de siglas tradicionais e pela perseguição política a candidatos populares, o pleito em questão restringiu severamente as opções do eleitorado. Diante do cerceamento democrático, o voto popular concentrou-se inicialmente na chapa composta por Rodrigo Paz e Edman Lara, vista por uma parcela da população como uma alternativa para evitar o retorno do neoliberalismo e assegurar o cumprimento da ordem constitucional.
Nas eleições presidenciais de 2025, o senador Rodrigo Paz Pereira (PDC) foi eleito presidente no segundo turno com 54,5% dos votos, derrotando Jorge “Tuto” Quiroga (Aliança Libre). A abstenção nacional ficou em torno de 20% do eleitorado, enquanto o voto nulo superou a marca dos 19%. A confiança de parte da população residia na figura do vice-presidente, Edman Lara. Contudo, uma vez empossado, o presidente Rodrigo Paz promoveu um rápido realinhamento político. Ao neutralizar as funções do vice-presidente e centralizar o Poder Executivo em um superministério, o governo iniciou, em apenas seis meses, o desmantelamento das estruturas soberanas do país.

A Ofensiva Neoliberal

A reversão do modelo plurinacional reflete-se na agenda econômica adotada pelo atual governo, caracterizada por medidas fiscais regressivas que isentam as grandes fortunas e oneram a população empobrecida através do aumento da inflação, do arrocho salarial e do desemprego. Soma-se a isso o plano de privatização de setores estratégicos reconquistados pelo Estado, como a companhia aérea Boliviana de Aviação (BoA) e as reservas de lítio geridas pela YLB Lítio.
Um dos pontos centrais de tensão está na política agrária. O governo federal tem articulado a entrega e a regularização de terras em benefício de latifundiários locais e, notadamente, em coordenação com forças estrangeiras e comunidades menonitas. Esse processo promove o avanço da fronteira agrícola sobre terras protegidas, resultando em ataques sistemáticos e na expulsão de comunidades indígenas originárias e de famílias camponesas de seus territórios tradicionais.

Crise de Legitimidade e o Avanço Autoritário

“A confiança pública no governo agravou-se com denúncias de corrupção e de ingerência externa, evidenciada pelo retorno de agências e militares norte-americanos (como a DEA) ao território nacional, além da deterioração dos serviços públicos — como a importação de combustíveis de baixa qualidade que afetou diretamente o transporte operário. Após uma primeira onda de protestos em fevereiro de 2026, quando o povo dialogou com o governo em busca de saídas econômicas, o Executivo rompeu os acordos em abril ao decretar medidas anticonstitucionais. Diante disso, o povo foi às ruas exercendo seu direito democrático de lutar. Rodrigo Paz, por sua vez, reagiu com violência contra a própria parcela da população que o elegeu, culminando na escalada autoritária e na severa restrição de direitos civis oficializada ontem. Sob um severo cerco midiático que oculta o número real de vítimas e a dimensão da insurgência, a população boliviana enfrenta ainda o recrudescimento de discursos e atos de violência racista contra os povos originários nas áreas urbanas. Atualmente, a luta na Bolívia está organizada em várias frentes, desde os bloqueios nas estradas até mulheres organizadas em greve de fome.”

A Solidariedade ao Povo Boliviano é Urgente
A resistência que se desenrola nos bloqueios e nas ruas da Bolívia, nas greve de fome ultrapassa as fronteiras nacionais. O que está em disputa não é apenas a governabilidade de um país, mas a própria sobrevivência do projeto de soberania e integração da América Latina (Abya Yala) frente à reinstalação de políticas de submissão econômica. Diante do silenciamento informativo, a solidariedade internacional e a difusão de informações independentes tornam-se ferramentas urgentes para a salvaguarda dos direitos humanos e para o restabelecimento de um processo democrático, livre e soberano na Bolívia, de modo que a vontade dos bolivianos seja respeitada.
Nesse sentido, nós, brasileiros, organizamos um comitê de solidariedade ao povo em luta na Bolívia, entendendo que é um direito do povo lutar por seus direitos, por segurança alimentar e pela continuidade do Vivir Bien. Fazemos aqui um chamado aos irmãos e irmãs, pois a luta da Bolívia também é a nossa luta. Levar a voz da Bolívia ao povo brasileiro é um compromisso com os irmãos e irmãs bolivianos.
O povo boliviano clama por uma saída constitucional: a renúncia de Rodrigo Paz, a assunção do vice-presidente e a convocação de eleições livres, soberanas e democráticas, com a participação de todos os candidatos populares, sem restrições ou inelegibilidades, garantindo que todas as candidaturas sejam devidamente habilitadas.

Assinam este documento:
Feminismo Comunitário de Abya Yala (Organização Social Internacional) e suas porta-vozes:

• Julieta Paredes Carvajal: Mulher indígena Aymara, nascida em La Paz, Bolívia. Escritora e psicóloga.
• Tamikuã Txihi: Indígena Pataxó, artista audiovisual, ceramista, escultora, muralista, performer, poeta, curadora e arquiteta indígena.
• Rafaela Vilaça Almeida: Historiadora, ativista em defesa dos direitos Humanos.
• Antonia Aparecida de Souza: Presidente do Conselho de Mulheres de Guararema.

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