Estrela do Oriente: 90 anos de resistência, cultura e identidade negra em Barretos

 

Fundada em 6 de janeiro de 1936, a Sociedade Beneficente e Recreativa Estrela do Oriente completa 90 anos de uma trajetória marcada por luta, dignidade, cultura e resistência. Nascida em um período em que homens negros eram impedidos de frequentar clubes, espaços de lazer e até igrejas da cidade, a Estrela do Oriente surgiu como um gesto coletivo de coragem e afirmação da identidade negra em Barretos.
O nome da entidade carrega um simbolismo profundo. Estrela do Oriente faz referência à estrela-guia que conduziu os Reis Magos até o nascimento de Jesus Cristo, a Estrela d’Alva, símbolo de esperança, fé e orientação. Assim como na narrativa bíblica, a Estrela do Oriente de Barretos passou a guiar gerações de homens e mulheres negras na busca por dignidade, pertencimento e cidadania.

Um clube nascido da exclusão, fortalecido pela união

Em 1936, a realidade social era dura e excludente. Homens negros não tinham acesso aos clubes da cidade, ao lazer, à diversão e à convivência social em igualdade. Diante desse cenário, um grupo de homens negros decidiu criar seu próprio espaço, onde fosse possível dançar, celebrar, organizar-se e existir com respeito.
Desde antes mesmo de sua fundação oficial, a Estrela do Oriente já se fazia presente na vida cultural da cidade. Em 1932, por meio do bloco Carvão Nacional, fundado por uma mulher negra, a agremiação já participava do carnaval e das manifestações populares, abrindo caminhos para a presença negra nas ruas de Barretos.

Carnaval, cultura e protagonismo negro

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, a Estrela do Oriente se consolidou como a principal — e muitas vezes a única — agremiação carnavalesca que congregava a população negra da cidade. Destacou-se de forma expressiva no carnaval de rua, conquistando prêmios, respeito e visibilidade.
Mais do que festas, a Estrela formou lideranças, artistas, sambistas e cidadãos que se tornaram verdadeiros baluartes da sociedade barretense. Pessoas simples, trabalhadoras, mas com uma visão coletiva de mundo, comprometidas com a valorização da comunidade negra.
Nesse mesmo período, a entidade participou ativamente de eventos culturais e históricos, como as noites folclóricas preparatórias da Festa do Peão, as celebrações do 13 de Maio, data que marca a abolição da escravatura, e iniciativas artísticas inovadoras.
Entre essas iniciativas, destaca-se a criação de um grupo de teatro negro, formado exclusivamente por atores negros, que chegou a se apresentar na capital paulista com o espetáculo “Esqueleto Zero Hora”, levando o nome de Barretos e da Estrela Mais do que festas, a Estrela formou lideranças, artistas, sambistas e cidadãos que se tornaram verdadeiros baluartes da sociedade barretense. Pessoas simples, trabalhadoras, mas com uma visão coletiva de mundo, comprometidas com a valorização da comunidade negra.
Nesse mesmo período, a entidade participou ativamente de eventos culturais e históricos, como as noites folclóricas preparatórias da Festa do Peão, as celebrações do 13 de Maio, data que marca a abolição da escravatura, e iniciativas artísticas inovadoras.
Entre essas iniciativas, destaca-se a criação de um grupo de teatro negro, formado exclusivamente por atores negros, que chegou a se apresentar na capital paulista com o espetáculo “Esqueleto Zero Hora”, levando o nome de Barretos e da Estrela do Oriente para além das fronteiras da cidade.

A luta por um espaço próprio

Durante muitos anos, a Estrela do Oriente não teve sede própria. Bailes e encontros eram realizados em salões alugados, galpões improvisados e até antigas máquinas de arroz desativadas. Em muitas ocasiões, manifestações culturais organizadas pela população negra eram interrompidas pela polícia, reflexo direto do preconceito estrutural da época.
Nesse contexto, destaca-se a figura de Lazinho, primeiro presidente da Estrela do Oriente. Jovem negro, proprietário de uma pastelaria no centro da cidade, Lazinho conquistou o respeito das autoridades por sua postura firme, organizada e disciplinada. Sua liderança foi fundamental para garantir que os eventos da entidade ocorressem com ordem e segurança, abrindo caminhos para o reconhecimento institucional da Estrela do Oriente.
Graças à persistência da diretoria e ao diálogo com o poder público, foi possível conquistar junto à Prefeitura e à Câmara Municipal um terreno para a construção da tão sonhada sede própria. Com apoio da então Caixa Econômica Estadual, do governador Laudo Natel e do prefeito de Barretos, Dr. Melek Geraige, a obra foi iniciada e, finalmente, em 1977, a sede da Estrela do Oriente foi inaugurada — um marco histórico para a comunidade negra da cidade.

A mãe maior do samba em Barretos

Com sede própria, a Estrela do Oriente ampliou ainda mais sua atuação cultural e social. Sua escola de samba tornou-se referência, conquistando títulos regionais e formando gerações de sambistas, ritmistas, compositores e dirigentes carnavalescos.
Hoje, Barretos conta com seis escolas de samba, todas elas nascidas, direta ou indiretamente, dentro da Estrela do Oriente. Por isso, a entidade é reconhecida como a mãe maior do samba na cidade, berço de tudo o que se construiu em torno da cultura carnavalesca e da expressão negra local.
A importância histórica da escola de samba da Estrela do Oriente é tamanha que sua fundação antecede, inclusive, escolas tradicionais do país, como a Unidos de Lavapés, de São Paulo, recentemente homenageada pela Assembleia Legislativa do Estado. Esse dado reforça o papel pioneiro da agremiação barretense no cenário do samba brasileiro.

90 anos de memória, resistência e orgulho

Ao completar 90 anos, a Sociedade Beneficente e Recreativa Estrela do Oriente não celebra apenas o tempo, mas uma história de resistência ao racismo, de construção coletiva e de afirmação da identidade negra. Cada baile, cada desfile, cada ensaio, cada reunião foi, e continua sendo, um ato político e cultural de pertencimento.
A Estrela do Oriente é mais do que um clube. É um símbolo vivo da luta do povo negro em Barretos, um espaço de acolhimento, de formação humana, artística e social. É memória, é ancestralidade, é futuro.
Celebrar seus 90 anos é reconhecer que, guiados pela sua estrela, homens e mulheres negras encontraram — e continuam encontrando — caminhos de dignidade, alegria e esperança.

*Coriolano Neves
Jornalista Designer e Carnavalesco
Vice presidente da SBREO*

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