3º Connegro é concluído em Barretos

 

Diversas discussões foram realizadas ao longo do congresso internacional, realizado em Barretos entre estas quarta e quinta, 29 e 30

Com uma série de apresentações e debate realizados ao longo de dois dias, a 3ª edição do Congresso Internacional da Cultura, Diversidade e Consciência Negra (Connegro) foi concluída na tarde desta quinta-feira, 30, na Estância Turística de Barretos. O vice-prefeito, Mussa Calil Neto, e a secretária municipal de Assistência Social e Desenvolvimento Humano, Juliana Ferreira Adão, representaram a Prefeitura no evento, que contou também com a participação de coordenadores da Casa Afro, Casa da Mulher, CREAS, dos CRAS e outros profissionais ligados ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS) em Barretos e também de outras cidades, entre outros participantes.

Durante o evento, Juliana Ferreira Adão destacou que o tema racismo não é apenas abordado de forma pontual na Assistência, e que as melhorias na forma de atender a população estão presentes no dia a dia, e lembrou que um dia ela foi usuária do serviço da Assistência. “Sou fruto de serviços de psicólogos e assistentes sociais, que olharam o que eles poderiam fazer com aquela mãe que foi buscar atividade de qualidade, e com isso eles transformaram a minha vida, me enxergaram como potência e potencializaram a minha família para que eu estivesse aqui hoje, dentro da Assistência novamente, para inspirar e transformar outras vidas.

Mussa Calil Neto, ao estar presente no primeiro dia do congresso, expressou seu desejo de que um dia o racismo faça parte apenas do passado e destacou sua visão de que a eliminação do racismo passa por olhar para o outro e sentir que aquela pessoa poderia ser seu pai, sua mãe, seu filho, seu irmão. “Se a gente tratar as pessoas desse jeito, a gente acaba com o racismo”, afirmou.

Maria Izildinha Dias Dionísio, chefe de seção do Núcleo de Avaliação e Supervisão da Regional de Assistência e Desenvolvimento Social de Barretos – DRADS Barretos, destacou seu sonho de que um dia não haja racismo e ressaltou a importância de se sonhar junto, lembrando que a ampliação das discussões e ações antirracistas que estão ocorrendo nos serviços na região ganharam impulso a partir de diálogos realizados durante um evento das secretarias de Assistência em Serra Negra em 2024. “Combinamos de montar um grupo para trabalhar o ‘SUAS Sem Racismo’, pois sabemos que a nossa maior população em vulnerabilidade, em todo e qualquer lugar, é o negro; sabemos também que as pessoas que atendem trazem em si o racismo e, às vezes até sem perceber, tratam essa população de maneira diferente”, ressaltou.

Ela lembrou que, a partir daí, foi elaborado um curso de Letramento Racial e os municípios foram convidados a integrarem. “O nosso lugar é onde a gente tiver que estar. Agradeço a todos vocês que estão aqui e acreditam nessa luta. Um dia, quem sabe, vamos ter um País sem racismo, mas quero começar pela Assistência, porque isso na Assistência não pode existir, pois a nossa população precisa de atendimento e não precisa de assistente social ou psicólogo torcendo o nariz para a pessoa negra e dizendo para ela ‘você aqui de novo’. É isso que primeiro eu quero aqui na nossa região, depois a gente tenta mais para frente”, concluiu Izildinha.

Eloísa Almeida, coordenadora do Projeto Minhas Cicatrizes Não Falam Por Mim, reforçou que trabalhar representando o SUAS não pode ser só por conta do salário. “Ser mulher preta em um País como o nosso é muito difícil, ser preto é muito difícil. Através de um sonho que juntamos podemos estar aqui hoje e fazer a nossa parte. Porque se cada um de nós se tornar replicador do antirracismo conseguiremos uma boa parte do País sem racismos, se cada um fizer dentro da sua casa, do seu espaço de trabalho. O ‘SUAS Sem Racismo’ é de extrema importância porque uma boa parcela dos usuários são pretos, e quando alguém procura o CRAS ou qualquer órgão é porque está no limite, está numa fase em que tem muitas dores, já sofreu racismo, já sofreu fome. O nosso objetivo é respeito, a gente quer respeito”, destacou.

O professor Mestre André Aluize, coordenador do Educaxé, na Unesp, e do Connegro, ressaltou que não adianta quebrar uma estrutura e não colocar nada no lugar. “A desconstrução de uma estrutura a qual nós justificamos o racismo é feita com o tempo. Quando estamos falando novamente sobre racismo é porque esse assunto ainda não se resolveu e, enquanto nós estamos falando sobre isso, pessoas estão morrendo pela cor da pele. Tem um provérbio que diz ‘para que o mal vença, basta que o bem não faça nada’. Para o racismo vencer é só a gente não fazer nada, achar que não é comigo, dizer ‘não tem gente preta na minha família’, ‘eu gosto de preto’, ‘eu tenho até doméstica em casa’”, pontuou.

Aluize destacou que a desconstrução é necessária. “Durante todo este mês foram tantos encontros, todos na mesma causa, porque é a causa do povo brasileiro. Isso é inerente a todos nós. A gente chama vocês para pensarem em brasilidade. E brasilidade é feita por gente branca, gente preta, gente amarela, gente vermelha, gente azul”, reforçou o coordenador do congresso.

Além das palestras e rodas de conversa, ao longo dos dois dias foram apresentados projetos desenvolvidos em serviços da Assistência em municípios como Barretos, Cajobi, Monte Azul Paulista, Taiuva e Severínia.

O primeiro a ser apresentado foi sobre uma semana de atividades sobre letramento racial e luta antirracismo desenvolvida com crianças atendidas no CRAS em Cajobi. A iniciativa incluiu a construção de uma minibiblioteca antirracista. “Pensamos em trabalhar com crianças de 3 a 12 anos. Pegamos diversos livros com temática para crianças, mas que falassem de forma a enaltecer a pele preta, o cabelo preto. Assim as crianças tiveram a oportunidade de ler diversos livrinhos com histórias onde o protagonismo era preto. Elas gostaram bastante. Às vezes, a realidade vai atropelando a não conseguimos parar e falar de pautas importantes, por isso quero agradecer à nossa secretária Izabel Somer pela oportunidade de planejarmos essa ação”, ressaltou a psicóloga Gabrielle Santana.

Esta edição do Connegro teve como tema “Corporeidade Negra: Corpos Coletivos, Culturais, Políticos e Religiosos”. O Connegro tem como objetivo promover reflexões sobre a educação antirracista, o letramento racial e as culturas dos povos negros brasileiros, sob a perspectiva das identidades, territorialidades, religiões de matriz africana, bem como do combate ao racismo e da promoção da equidade social.

O Connegro é um evento anual do EducAxé/Proec/Proade/Unesp, realizado pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp – Araraquara, pelo Nupe (Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão – GT/FCLAR) e parceiros, por meio dos NUEDs (Núcleo EducAxé Unifafibe, Núcleo EducAxé Drads/Barretos, Núcleo EducAxé FCHS-Unesp Franca e Núcleo EducAxé de Arte). Esta foi a última fase do Connegro 2025, que desde o fim de setembro teve etapas também em Araraquara, Franca e Bebedouro. As atividades em Barretos nesses dois dias, 29 e 30 de outubro, foram realizadas no Senac.

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