Artigo: O Ventre da Cultura e da Vida, por José Geraldo Resende
O 8 de março não é uma data de celebração superficial. É um marco histórico de resistência, nascido da luta operária e da reivindicação por dignidade. No Brasil, essa data carrega um peso ainda maior: nossa cultura foi moldada por mulheres que se recusaram a ser invisíveis e que, ao desafiar o silêncio, criaram os alicerces de uma nação.
Hoje, porém, essas conquistas estão sob ataque. O avanço do obscurantismo, do autoritarismo e da lógica nazifascista ameaça não apenas os direitos das mulheres, mas a própria possibilidade de existir como sociedade plural e democrática. O ódio misógino, que se manifesta em violência cotidiana e em políticas de exclusão, é uma guerra declarada contra o ventre da cultura e da vida.
Mulheres como resistência cultural e política
A Princesa Leopoldina teve papel importante na formação da educação primária, mas a construção da escola no Brasil se deveu, em grande medida, ao trabalho das mulheres negras que atuaram como professoras e trabalhadoras na estrutura escolar. Chiquinha Gonzaga, Tarsila do Amaral, Carolina Maria de Jesus, Gal Costa, Rita Lee, Fernanda Montenegro e Elza Soares não foram apenas artistas: foram revolucionárias. Cada uma, à sua maneira, enfrentou o conservadorismo e abriu caminhos para que o Brasil pudesse se reinventar. Elas provaram que a cultura é um ato político e que a liberdade estética é inseparável da liberdade social.
Essas mulheres nos ensinaram que criar é resistir. Que ocupar o espaço público, escrever a própria história ou cantar contra o silêncio imposto é uma forma de insurgência contra o poder tirânico.
Contra o retrocesso e a violência
Vivemos um tempo em que forças obscurantistas tentam apagar conquistas históricas, reduzir mulheres à invisibilidade e naturalizar a violência. Não podemos aceitar que meninas, mulheres e até bebês sejam alvo de guerras que buscam exterminar povos e culturas. O ataque às mulheres é o ataque à memória, ao afeto e à própria ideia de futuro.
A “solidão técnica” que tantas carregam — trabalhar sem reconhecimento, sustentar estruturas invisíveis — é a mesma que Carolina Maria de Jesus enfrentou ao escrever no lixo e Rita Lee ao desafiar o que era “permitido” a uma mulher. Essa força, que nasce da urgência e da coragem, é o que mantém viva a produção cultural brasileira.
O futuro será feminino ou não será
O Brasil que o mundo aplaude só existe porque mulheres decidiram, em momentos de coragem silenciosa, que aquele projeto iria nascer. Mas o futuro não pode ser sequestrado pelo obscurantismo. Ele só pode ser assinado pelas mulheres, que são arquitetas da memória, guardiãs do afeto e protagonistas da cultura.
Neste 8 de março, não basta homenagear: é preciso lutar. Lutar contra a violência misógina, contra o retrocesso da violência política e contra a guerra contracultural. Defender as mulheres é defender o Brasil. Por minha saudosa mãe, e por todas as mulheres que inventaram este país: obrigado por sua existência.
José Geraldo Resende – Ator, ativista cultural e bacharel em Direito









